Lula apresentou-se, embora afirme
a confiança na Justiça, como quem não confia mais nos operadores da Justiça que
atuam na promotoria e no juízo, algo diferente do que vimos até algum tempo
atrás, quando havia ainda réstia (ou mais) de esperança no apego à verdade
destes atores.
Lula fez algumas afirmações que
são chocantes, e que serão ainda mais chocantes à medida que se tornarem aspectos
da História do Brasil, e para os quais precisamos estar atentos.
Lula relata de quando um jurista,
no início das acusações da ação do tríplex, detalhava que não havia motivo para
se preocupar porque não havia a menor chance de aquilo prosperar, por absoluta,
além de falta de verdade, de consistência dos argumentos apresentados. O que
vimos posteriormente, a despeito de toda inconsistência e alienação dos
argumentos apresentados nas acusações, e ainda da farta quantidade de prova em
contrário, provas da inocência de Lula, contrastante com a ausência de provas
contra Lula, foi que foi condenado, e ainda pior, teve sua pena esdruxulamente
aumentada na segunda instância, fazendo-nos testemunhar escândalo que encontra
só similitude com a votação do impeachment da presidenta Dilma na Câmara dos
Deputados, dado o quadro ridículo. Na época, lembro que Lula recebeu
telefonemas de juristas e analistas que, ao contrário, explicavam a Lula que a
Justiça no Brasil tem uma dinâmica que já o condenara antes mesmo de ele se
tornar réu, ao que Lula respondia que não havia o que temer porque era
inocente. Isto está patente em gravações de telefonemas divulgados
posteriormente pelo juiz (político) Moro. Ontem, Lula apresentou-se como não
mais confiante na operação da Justiça, embora ainda confie na Justiça (Divina e
Histórica).
Lula, também de forma inédita ao
que sei, ou ao menos rara, descreve o que faria se pudesse ao tempo das
acusações dos procuradores no episódio do PowerPoint. Lula explica que deveria
ter, à época, estimulado os militantes e todas as diretorias do PT a entrarem
com representações em busca de Justiça quando o PT foi acusado de ser uma
quadrilha, já que isto foi ataque à honra do Partido e da militância passível
de demanda de reparo através da Justiça. Aqui Lula demonstra que já não confia
nos operadores da Lei (da Justiça). Esta fala foi quase como um pedido de
socorro. O grito de um náufrago na vastidão do oceano, ainda vivo, mas sob
intensa tensão. Algo também incomum quando nos referimos a Lula.
Lula explica, novamente, à Juíza,
como já fizera antes ao juízo de Moro, que não havia alternativa a condená-lo,
dado as circunstâncias que se estruturam na ação penal sobre mentiras e mais
mentiras, umas sustentadas pelas outras.
Lula falou não para a Justiça, em
uma defesa na ação penal, mas falou para a História. O tom mais potente, o “desafio”
à autoridade da juíza, e até mesmo a acusação que Lula fez diretamente, e à
qual a Juíza reagiu veementemente, é de quem sabe que não pode confiar naqueles
operadores. O tom é de quem agora precisa explicar, e deixar registrado, para a
História, que embora espere testemunhar em vida, não tem certeza mais disto, e
registra assim mesmo para a posteridade. Lula fala não mais para seus filhos,
mas a seus netos, ou mesmo bisnetos, nesta Nação. Olha nos olhos do povo
brasileiro do futuro, embora não tenha abandonado os do presente, porque
entende que tem um compromisso com a esperança, e não só com a esperança agora,
mas com a esperança em qualquer tempo.
Lula falou que estava cansado,
que aos 73 anos, com tiros e tiros que atingiam o mesmo ponto de sua couraça,
embora não os tivesse matado, machucaram-no. Lula relata que faz esforço
homérico para manter o humor. Fala que se esforça para não deixar o ódio
penetrar em sua alma. Embora a pergunta, de todo aquele que sofre de injustiça,
elevada aos céus: “Pai, por que me abandonas-te?”, tenha sido já entoada por
Lula, esforça-se para agir segundo sua consciência e fé.
Em determinado momento, em um "afasta de mim este cálice!", Lula pede a um de seus advogados, que ao se despedir de todos ao sair desejando um feliz feriado, que "me leva com você!", e repete "me leva com você!". Não foi uma brincadeira, foi um pedido de socorro.
Em determinado momento, em um "afasta de mim este cálice!", Lula pede a um de seus advogados, que ao se despedir de todos ao sair desejando um feliz feriado, que "me leva com você!", e repete "me leva com você!". Não foi uma brincadeira, foi um pedido de socorro.
Fui dormir, nesta quarta-feira,
14 de novembro de 2018, com um pesar no coração, e pedindo internamente
desculpas a Lula. Ele não merece está assim disposto sobre a pedra fria do
altar pagão do sacrifício a falsos deuses.
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